Problemas ou armadilhas de sermos autodidatas

Ser autodidata esconde problemas e armadilhas que podem nos atrapalhar bastante. Problemas esses que eu senti na pele e gostaria de compartilhar contigo para que você não passasse por isso.

Hoje em dia temos muito conhecimento espalhado na internet. Não precisamos de uma sala de aula para aprender algo de nosso interesse. Temos conteúdo de todos os tipos por vídeo, através dos blogs e/ou documentações e livros técnicos.

Se queremos aprender programação, temos cursos completos via self learning, como o freeCodeCamp, se desejamos entrar na área de desenvolvimento de software temos livros que ensinam sobre isso (como o meu :wink:) e assim vai!

Ser autodidata significa que conseguimos aproveitar todos esses recursos e aprendermos sem depender de que alguém compile um conteúdo e nos explique diretamente. Podemos quebrar a cabeça com um problema no código fonte de um projeto que pegamos no GitHub e assim aprenderemos muito, sem que ninguém tenha nos dito nada diretamente.

Na área de desenvolvimento de software, ser uma pessoa autodidata é extremamente vantajoso. Nós estamos sempre estudando, pois todos os dias algo novo acontece e precisamos nos atualizar, nos adequar ou só expandir nossa caixa de ferramentas para criação de produtos digitais.

Mas ser autodidata esconde alguns problemas que podem nos atrapalhar bastante. Problemas esses que eu mesmo senti na prática e gostaria que você não passasse por isso, como não conseguirmos mensurar nosso conhecimento, querermos aprender tudo do dia para a noite, às vezes não conseguir sair do básico em um determinado campo de estudo, acabar com a nossa saúde mental de tanto querer estudar ou aprender mais e o problema mais chato: achar que somos gênios só porque aprendemos algo por conta própria.

Existem maneiras de evitarmos os problemas citados acima e vamos entender algumas delas, as que eu uso, para sobrevivermos como pessoas autodidatas saudáveis e produtivas!

Teia de aranha, uma armadilha como nossa falta de planejamento, por Michael Podger no Unsplash

Não saber qual o nível do nosso conhecimento

Quando queremos entrar em uma área de atuação, como no nosso caso a área de programação, precisamos entender em qual nível de conhecimento estamos. Isso para que tenhamos confiança de aplicar em uma vaga de trabalho e não gastar uma oportunidade.

É bem difícil mensurar isso se não estamos em uma sala de aula, pois na sala temos atividades, exercícios e provas para validar nosso conhecimento. Além de termos uma grade de estudos bem definida em tópicos que vão nos fazendo subir de nível, como comentado no vídeo sobre faculdade: vale a pena fazer faculdade para trabalhar com programação?. Visto que o grande problema aqui é a falta de validação do conhecimento e uma grade de estudos, a solução para ele seria criar isso!

O que eu faço quando quero/vou aprender algo novo é acessar vários cursos ou documentações relacionadas ao tópico que quero aprender e então eu monto um plano de estudos baseado nas grades do que eu encontrei. Podemos também copiar sumários de livros que encontramos por aí.

Validar nosso conhecimento como pessoas desenvolvedoras de software acaba até sendo mais fácil hoje graças a algumas ferramentas como o HackerRank ou exercism, que são plataformas onde praticamos algoritmos resolvendo problemas que eles propõe (inclusive nós também podemos adicionar exercícios lá).

Outra maneira de validar nossas habilidades e saber se o estudo autodidata está dando certo é criar projetos. Precisamos realmente colocar em prática o que estudamos e codar, seja colocando um projeto no ar ou só no GitHub mesmo.

Escrevi um pouco mais sobre estudarmos por conta e técnicas para criar um plano de estudos e validar nosso conhecimento neste artigo: Assumindo o papel de protagonista em nossa aprendizagem.

Querer aprender tudo de uma só vez

Este problema é bem arriscado.

Devido a demanda das empresas e os requisitos das vagas que acabam nos deixando desesperados(as) acabamos achando que precisamos aprender TUDO de uma só vez.

Quando encontramos em uma vaga para software engineer algo assim:

Experiência de programação em alguma dessas linguagens: C, C++, C#, Java, JavaScript, Go, Python, Scala, Kotlin;

Entramos em desespero. Se soubermos fazer isso, montamos uma grade de estudos contemplando todos esses assuntos e vamos pra cima estudar. Mas, para aprender tudo isso daí de uma só vez ou vamos demorar um bom tempo ou vamos pirar.

Outro ponto é quando definimos um tópico principal, como JavaScript, então entramos na documentação e começamos estudar, mas, passado dois dias, já começamos a achar que estamos demorando demais para entender o conteúdo.

Nós não vamos aprender de maneira sadia e realmente fixa em nossa mente se corrermos com os estudos de maneira desorganizada e sem um plano. Dá para aprender rápido, mas não é estudar correndo, é estudar com planejamento.

Aqui nós encontramos algumas dicas de como aprender rápido, mas sem perder nossa sanidade: Como alcançar objetivos rapidamente nos estudos (sem ficar louco).

Não conseguir sair do lugar

Nessa eu patinei diversas vezes.

Depois de planejar uma grade de estudos bonitinha, montar métodos para validar nosso conhecimento periodicamente e começar a estudar de maneira planejada vem outro problema: a auto-sabotagem.

Com o tempo vamos vendo em outras pessoas um nível de conhecimento x em determinadas tecnologias. Tecnologias essas que achamos que também precisamos aprender. Mas, devido a não termos alguém nos “mandando” seguir um caminho, começamos a desviar do nosso plano de estudos para estudar outras coisas (porque queremos aprender tudo de uma vez) e quando voltamos no tópico principal que queremos aprender achamos que não sabemos nada. Fica parecendo que a gente estuda, estuda, estuda e não sai do lugar.

Algo ruim que vai acontecer conosco quando caímos nessa síndrome do impostor é cairmos no fluxo de ficar procurando mais e mais conteúdo de um assunto e nunca validar o que aprendemos de maneira prática. Essa falta de prática nos derruba.

Quando chegamos em um nível desses é um sinal que estamos na paralisia por análise, um momento em que ficamos pesquisando tanto sobre um assunto, mas não colocamos ele para acontecer.

Um exemplo disso é quando queremos praticar esportes, pesquisamos tudo sobre aquele esporte e nunca vamos de fato praticá-lo. Digamos andar de skate… pesquisamos os modelos de shape, manobras, vemos vídeos de como fazer essas manobras, encontramos os melhores picos para andar, entramos em grupos do Facebook e até compramos o skate, mas na hora de ir colocar o plano em prática não saímos do lugar. Voltamos a pesquisar e pesquisar e pesquisar.

A única maneira de escapar disso é realmente parar de procurar conteúdo e começar a praticar, como eu comento neste artigo: Pare de procurar conteúdo e comece a praticar! Você pode estar bloqueado(a) pela paralisia por análise.

Acabar com a saúde por conta dos estudos

A maneira mais fácil de uma pessoa autodidata se destruir toda é cair no fluxo dos estudos.

Nosso cérebro acaba caindo em fluxos de trabalho quando estamos sentindo prazer em uma tarefa. Um exemplo disso é quando estamos fazendo algo divertido e ao olharmos o relógio perdemos 2, 3 ou mais horas do dia fazendo aquela mesma coisa, como jogar um jogo, ver uma série ou sair com amigos e amigas.

Estudar não é diferente. Às vezes estamos gostando tanto do que estamos aprendendo e curtindo tanto a maneira como estamos aprendendo que caímos nesse fluxo e perdemos a hora de parar.

Isso pode ser prejudicial de várias maneiras como: reduzir nossa carga horária de descanso (dormir é tão importante para fixar o conhecimento quanto passar horas a fio estudando), aumentar nossa ansiedade a um nível que acordamos mais cedo querendo ler/ver um vídeo ou fazer qualquer coisa relacionada ao conteúdo que estamos aprendendo, parar de socializar para ler artigos no celular durante um passeio.

A única maneira de não cair nessa armadilha (divertida) de fluxo é criarmos rotinas bem definidas e com horários e dias fixos para estudar.

Digamos que queremos aprender uma nova linguagem de programação, ao invés de montar a grade de estudos e só sair estudando, devemos colocar dias fixos na agenda (pode ser um Google Calendar ou no papel mesmo) e horários onde vamos focar naquilo.

Dessa maneira, além de nos limitar a não viver só para estudar, nos ajuda a ter concentração nos estudos.

Podemos selecionar, por exemplo, 3 dias da semana onde vamos estudar por uma hora seguida sem parar para olhar o celular, as redes sociais ou ver conteúdo avulso não relacionado ao tópico estudado. Isso é muito mais produtivo do que estudar 2 horas ou mais todos os dias se distraindo o tempo todo com os grupos no WhatsApp.

Achar que é um gênio porque consegue aprender algo por conta

Para esse problema não existe solução fácil a não ser largarmos de ser babacas. - siiiim, muitas vezes somos todos babacas por achar que sabemos mais que todo mundo só porque estudamos por conta própria

Devido ao fato de que, muitas vezes, uma pessoa autodidata aprende algo mais rápido do que alguém que está em uma sala de aula por conta de horários de aulas, atraso por parte dos professores, faltar às aulas, às vezes professores ruins ou qualquer outro problema desse tipo, a soberba pode tomar conta de nós.

Fora estar na frente das outras pessoas, dizer para os outros que aprendeu algo sozinho alimenta nosso ego. Nossos amigos e amigas, familiares e colegas de trabalho começam a dizer que somos muito bons/boas porque aprendemos algo sem ninguém nos ensinar. É uma verdadeira massagem para o ego.

Mas nada disso nos faz sermos melhores que ninguém. Podemos aprender rápido, aprender tudo sozinhos, mas isso não garante que somos melhores profissionais que outras pessoas que fizeram um curso ou uma faculdade, só demonstra que nós aprendemos a aprender. Isso é uma grande vantagem que temos se pensarmos em mercado e até em economia financeira (não gastar milhares em uma faculdade nos abre possibilidades de gastar com outras coisas ou até investir o dinheiro :money_with_wings:), mas não que somos melhores profissionais.

Abaixar o nosso ego é difícil, requer constante análise do nosso comportamento e autocrítica, mas só de não nos colocarmos como melhores que alguém já irá nos ajudar a controlar essa mania de superioridade que o ser humano tem.

Sempre que você achar que é melhor só porque aprendeu sozinho(a), ao invés de se colocar acima de alguém, compartilhe seu conhecimento com essa pessoa. Crie um blog ou coisa do tipo. Só assim você vai perceber se realmente sabe algo ou se é só seu subconsciente alimentado de elogios de terceiros e, de quebra, estará ajudando outras pessoas. Só não vá se achar melhor que ninguém por isso também, né?

Conclusão

Estudar por conta nos trás diversas armadilhas, algumas que nos dão muito prazer, outras que podem nos trazer problemas de saúde e sociais terríveis. Não existe uma maneira perfeita de escapar disso, mas espero que a reflexão trazida neste artigo tenha lhe ajudado a pensar sobre o seu estado atual (caso você esteja passando por algum dos problemas citados).

Se você conhece algum outro tópico ruim sobre estudar por conta, comente neste texto para conversarmos sobre isso.

Se você gostou do artigo, não esqueça de compartilhar e, o principal: se cuida!

Categorias:

Se você gostou deste artigo, me apoie no Catarse.

Apoiar

Espalhe a palavra!

Compartilhe este artigo nas redes sociais clicando nos ícones.

Deixe um comentário