William Oliveira

Carreira em programação, JavaScript, Nodejs, Performance Web, Git, GitHub, Linux, Open Source, mas também coisas realmente importantes como inclusão e diversidade - Vim da periferia pro mundo

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A verdadeira podridão

Comunidades de programação são meios muito legais de aprendermos algo novo (relacionado a programação ou não), conhecermos pessoas legais que podem nos ajudar a não desistir dos nossos sonhos, fora a promoção do compartilhamento de conhecimento para todas as pessoas de maneira gratuita, promovendo a inclusão social. Isso tudo é muito lindo pra mim.

Eu fui muito ajudado pelas comunidades e continuo usufruindo do conteúdo que algumas pessoas geram até hoje e, por isso, eu amo as comunidades e sempre indico que todos(as) participem o máximo possível dos grupos, eventos e qualquer outra iniciativa que surgir a partir delas.

Estar em um grupo com o mesmo objetivo que o nosso nos fortalece muito! Porém, mesmo sendo algo tão importante, existem maneiras de desvirtuar esse ambiente e o tornar tóxico. Vamos chamar isso de podridão.

Em algum momento da história, as comunidades foram tomadas por pessoas que só pensam em si mesmas, que escondem a verdade atrás dos seus tweets forçados jogando a sujeira pra debaixo do tapete.

Este artigo é um desabafo (eu não aguentava mais ficar com isso preso) a respeito do que eu venho percebendo este ano e que me desanimou muito das comunidades, depois de me envolver profundamente com pessoas que se dizem pró inclusão, diversidade, compartilhamento de conhecimento e afins. Mas que na hora de algum aperto onde deveríamos nos posicionar a favor das pessoas das nossas comunidades, elas se escondem atrás das mesmas frases de sempre: “Pra que isso?”, “Não sou desse tipo”, “Eu não vou ganhar nada com isso”, “Deixa disso”, “O mundo é assim”, “Eu não sou de treta”, “Aqui a gente só fala de coisa boa”, pois, se elas se manifestarem pró diversidade de verdade elas poderiam se queimar com outras pessoas “importantes” (como organizadores de eventos, editores de blogs, etc), aparentemente mais importantes do que as pessoas do seu próprio grupo.

Eu não quero te desencorajar de participar de comunidades e, principalmente se você for iniciante, não leia este desabafo até o final se não tiver resiliência para participar desses ambientes mesmo sabendo de tudo o que eu vou falar.

Lembrando que não são todas as comunidades que têm os problemas que eu vou citar, mas conhecendo esses problemas ficará mais fácil de identificar essa tal podridão e ficar um pouco mais esperto(a) nesse meio.

Também quero que você saiba que não está só na constatação de alguns problemas e que, se nos unirmos, podemos fortalecer as iniciativas que realmente estão aqui pelo coletivo e não por marketing pessoal de sua liderança.

Meu objetivo com esse artigo é alertar as pessoas de que existem problemas nas comunidades, eventos e afins, e algumas iniciativas não são ambientes seguros de verdade, inclusivos, acessíveis e muito menos pró diversidade como são vendidas nas redes sociais.

Podridão, Photo by Del Barrett on Unsplash

Código de conduta é uma farsa

As pessoas usam o código de conduta como uma maneira de dizer que sua comunidade é inclusiva.Só isso. Elas não se interessam em fazer o código de conduta realmente valer. Acredito que alguns líderes de comunidade só fizeram o fork de outro código de conduta, mas nunca nem leram o documento.

O preconceito continua existindo dentro das comunidades, mesmo seus líderes fingindo que está tudo bem por ali. Alguns deles pregam a bondade nas redes sociais, dizem que não toleram preconceito, mas nos seus círculos de amizade estão falando mal das pessoas que buscam inclusão ou zombando de alguém que reclamou de algum preconceito descarado que aconteceu no seu grupo.

As pessoas são constantemente agredidas por conta do preconceito com identidade de gênero, expressão de gênero, orientação sexual, aparência física, raça e/ou etnia, por religião e muitos outros pontos. E sabe o que esses líderes estão fazendo para mudar esse cenário? Nada, pois estão mais preocupados com sua comunidade ou seu próprio perfil atingir um número alto de seguidores nas redes sociais, um volume grande no Slack ou lotar um auditório em um meetup. Eles preferem não puxar briga por causa de preconceito para que os números não diminuam.

Quando alguém reclama de algo, questiona sobre a postura dessas pessoas por causa de algum acontecimento que não condiz com o que elas vivem falando por aí, elas dizem que quem reclamou só está querendo lacrar nas redes sociais.

Coleguismo, camaradagem ou a brotheragem

Quando alguém agride outra pessoa, verbalmente ou não, mas é amigo(a) de algum(a) organizador(a) de evento, moderador(a) de comunidade ou algo do tipo, essa pessoa não será punida.

Quando questionados(as), esses(a) líderes dizem que a pessoa agressora não é malvada, que errou uma vez só (mesmo sendo milhares de vezes), que pessoalmente aquela pessoa não é assim, que não pode fazer nada e a pessoa agressora vai continuar impune, frequentando o mesmo ambiente das pessoas que ela agrediu.

O mesmo se encaixa no código de conduta. Ele não se aplica para amigos dos líderes das comunidades.

Quando um amigo ou amiga da liderança faz algo que afeta alguém diretamente, o que acontece é toda uma análise de como a culpa foi da vítima e não do agressor, uma passada de pano e jogam a sujeira pra deixado do tapete.

Elitismo

As pessoas não se colocam no lugar de gente de baixa renda. Muito pelo contrário. Elas agem como se todo mundo tivesse tido a mesma oportunidade de aprender programação no computador de última geração da época dos seus 10 anos, que seus pais compraram por ela tirar nota alta na escola particular.

Slides em inglês em apresentações para uma comunidade brasileira, onde apenas 5% da população fala uma segunda língua e menos de 3% têm fluência em inglês.

Encontros presenciais até horários impraticáveis porque as pessoas demoram 2 a 3 horas dentro de um ônibus pra chegar nesse lugar e não tem condições de pagar um Uber/99/Taxi para ir embora para casa depois do último horário do busão.

As pessoas, que estão lá na frente palestrando, acham que todo mundo tem um Mac em casa e fazem exemplos de terminal rodando Homebrew e pouco se importam em colocar o exemplo também para Windows (plataforma de usuário final mais utilizada em PCs no mundo).

Panelinhas

As panelinhas, termo popular, são os grupos onde tem sempre as mesmas pessoas fazendo algo. Nos eventos das comunidades acontece a mesma coisa. Temos sempre as mesmas pessoas palestrando e não é por falta de vontade de algumas pessoas não. E muito menos por falta de capacidade técnica.

Temos pessoas com um conhecimento super avançado e que estão na cadeira por conta de não serem amigos íntimos dos organizadores dos meetups/eventos.

Protagonismo e empoderamento de mentirinha

Está na moda falar que é pró diversidade e mulheres em TI, mas a realidade é bem mais podre. Temos homens tomando a frente de iniciativas femininas, como se as mulheres não tivessem capacidade de tocar isso, e o pior é que quem ganha os méritos pela iniciativa são os homens e não as mulheres, que muitas vezes fizeram muito mais que eles.

Temos homens criando iniciativas para mulheres (tecnologia x ladies, tecnologia y girls) e fingindo que ajudam, mas a realidade é que eles dão um nome para um projeto pra parecer legais e depois somem.

Outras vezes temos homens “dando espaço” em seus projetos famosos, para que as mulheres apareçam um pouquinho, porém depois disso eles não as ajudam mais. É só para dar uma pequena aparecida ali e ano que vem elas são chamadas de novo para o dia das mulheres. Ao invés deles ajudarem essas mulheres a fazer algo tão grandioso quanto o que eles fazem, eles só querem que elas apareçam um pouco para eles parecerem legais.

As mulheres não precisam ser coadjuvantes dos seus projetos, elas precisam de ajuda para que os projetos delas sejam reconhecidos.

Nem se fala quando é a questão de pessoas negras, comunidade LGBT e mais… Essas pessoas só são chamadas para os projetos para bater a cota da diversidade, pois não conseguem ter poder nenhum de escolha ou tomada de decisão dentro de alguns grupos. - muito menos de denúncia dos casos de preconceito e assédio.

Conclusão

Este texto é um desabafo. Eu estava com esses pensamentos entalados na garganta a algum tempo e, com os recentes acontecimentos e ataques, eu não aguentei mais segurar.

Espero que você não desanime das comunidades e, muito pelo contrário, participe de comunidades que são realmente focadas nas pessoas que estão ali e não no marketing pessoal dos seus líderes/organizadores.

No site do Codamos encontramos uma lista de comunidades legais de se participar. Chega junto lá. Além de participar das comunidades, ajude a cadastrar as comunidades que você acha realmente legais para que as pessoas vão para um ambiente melhor.

Além de participação das comunidades legais, eu espero que você não sofra achando que está a sós no meio tóxico de alguns grupos. Temos pessoas boas de verdade em todas as comunidades, que podem te ajudar, te levantar em um momento de tristeza e te fortalecer para que você não desista dos seus sonhos.

Não se cale! Denuncie casos de agressão, casos de infração do código de conduta e, se a liderança dessas comunidades não fizer nada quanto a isso, saia de lá ou busque ajuda para combater essa verdadeira podridão.

Espalhe a palavra!

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