William Oliveira

Carreira em programação, JavaScript, Nodejs, Performance Web, Git, GitHub, Linux, Open Source, mas também coisas realmente importantes como inclusão e diversidade - Vim da periferia pro mundo

Um livro sobre carreira em programação

José Martí, um pensador cubano, disse que existem três coisas que devemos fazer na vida: “plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho”. Como alguém crescido no interior, com mãe viciada em plantas, eu já plantei algumas árvores (e outras plantas), não penso em ter um filho agora, mas acabei finalizar a escrita de um livro.

Hay tres cosas que cada persona debería hacer durante su vida: plantar un árbol, tener un hijo y escribir un libro Frase original de José Martí

Com o lançamento do livro cada vez mais próximo, eu vim aqui falar um pouco sobre como foi o processo de escrita, porque eu decidi escrever e publicar um livro através de uma editora famosa na nossa área, porque eu decidi falar sobre carreira e o grande conflito interno que foi por conta da minha missão pessoal de levar conhecimento para o máximo de gente possível e, sem querer, restringir o acesso através de um livro pago.

Por que eu decidi escrever um livro

Não foi de uma hora para outra que eu decidi escrever um livro. Eu já vinha pensando nisso a algum tempo e o tema já estava até preparado na minha cabeça. Eu já tinha um roteiro planejado, como divulgar isso e até um esquema de entrega contínua, pois eu pensava em escrever e deixar no GitHub, assim como é o Vim para Noobs, um guia para iniciantes com o editor de textos Vim, aberto e gratuito na internet.

Normalmente a própria comunidade de programação compartilha esse tipo de material, pois queremos que as pessoas tenham acesso a essa informação e evoluam profissionalmente.

Mas, o conteúdo no GitHub ou preso na nossa bolha das comunidades de programação acaba não chegando em uma grande maioria de pessoas. Pessoas totalmente iniciantes quase não tem noção do que é uma comunidade.

Em uma pesquisa que fiz para o Training Center cheguei a constatação que a grande maioria das pessoas que chegaram na comunidade foi através das redes sociais, indicação de amigos(as) ou através de outras comunidades.

Gráfico sobre como as pessoas chegam até a comunidade Training Center

30% através de redes sociais, 22% através de indicação de amigos, 14% através de outras comunidades, 5% pelo Google, 30% através de outras fontes. Somando a entrada por vias de quem já tem acesso a informação temos 71% das pessoas contra os 30% de outras fontes.

E também percebemos que a maioria já trabalha na área.

Gráfico sobre profissionalização da comunidade

74% já trabalha na área e somente 26% não trabalha, porém a maioria está procurando emprego por já possuir ao menos o conhecimento básico.

Quem já tem acesso a internet a algum tempo ou é da nova geração, que cresceu com mais acesso a esse universo, acaba se envolvendo com comunidade por saber que em alguma rede social deve existir um grupo que se junta para compartilhar sobre um assunto em comum.

Mas, mesmo sendo da nova geração, pessoas que vivem na minha realidade, a periferia, não estão na internet procurando conteúdo para aprender programação. Na realidade a gente não procura conteúdo para aprender nada na internet. Usamos só para diversão. Quando eu comecei a usar internet, na grande maioria do tempo era para me comunicar com meus parentes distantes. Eu nem imaginava o poder de transformação que estava nas minhas mãos quando eu sentava na frente do computador dentro daquela lan house.

A maneira mais prática de eu chegar nessas pessoas não é através da internet, é levando um livro até elas nas escolas públicas.

Por que a Casa do Código

Pense comigo:

Como levar um livro open source, online, e, no máximo, em PDF para a diretoria de uma escola pública e achar que eles irão aceitar meu conteúdo?

Dessa maneira o meu conteúdo não tem nenhuma validação, nenhuma garantia, de o que está escrito ali é algo realmente importante e seguro para as pessoas que irão ler.

Publicar com uma editora é o que traria a confiança que eu preciso para que a diretoria das escolas aceitem que meu conteúdo entre lá.

Quase que de imediato eu pensei em publicar através da Casa do Código. Isso porque eu conheço o trabalho da editora, conheço autores e autoras que publicaram por lá e as pessoas que trabalham no grupo Caelum.

A Casa do Código é uma editora muito bem vista pela comunidade de programação, então as pessoas, provavelmente, indicariam meu livro para iniciantes (assim eu espero) que estão buscando um rumo na área.

Além dessa boa fama da editora, o grupo Caelum trabalha muito bem seu conteúdo para que seja acessível para iniciantes. Desde o treinamento de instrutores até o seu podcast, o Hipsters.tech, todo o conteúdo é trabalhado para que qualquer pessoa entenda o que está sendo falado. Isso acaba trazendo o público certo para o conteúdo do livro (assim eu espero²).

Por que falar sobre carreira em programação

Com o objetivo traçado, editora escolhida, o tema também era claro na minha mente… Eu queria falar sobre carreira em programação.

Eu venho trabalhando com mentorias em desenvolvimento de software a mais de três anos e tenho visto pessoas mudando de vida graças aos meus conselhos, assim como de outros mentores e mentoras pela internet.

Eu queria pegar todos os conselhos que dou para os meus mentorados, compilar em uma fonte única e compartilhar com o máximo de pessoas possível para que elas também mudem de vida.

Meu objetivo ao falar sobre carreira é tirar as barreiras que toda pessoa em início de carreira tem na área de desenvolvimento.

Desde como funciona um programa, como é criado, como ele chega nas nossas mãos, qual linguagem de programação ou faculdade fazer (se fizer), como conseguir um emprego, etc.

Acaba que, juntando todo esse compilado, o livro não serve somente para iniciantes, mas para qualquer pessoa que tenha dúvidas de carreira na área.

Existe muito livro técnico sobre programação, mas temos poucas pessoas dando dicas para que os outros não caiam em uma vaga cilada, por exemplo. Decidi que eu iria falar sobre isso e não sobre código.

Como foi a escrita do livro

O processo de escrita com a Casa do Código é bem simples e prático.

Nós enviamos um email para a editora com a nossa proposta e eles nos ajudam a dar continuidade nesse projeto amparando em todas as etapas de criação.

Assim que eu mandei o email, já comecei a contabilizar as horas de trabalho no projeto.

Somando meu planejamento, escrita de um sumário, conversas com a Vivian, editora da Casa do Código, e várias reescritas da ideia central do livro, o planejamento inicial custou 10 horas.

Assim que tudo estava planejado, recebi acesso a um repositório no GitHub onde eu iria escrever meu livro. A Casa do Código utiliza um esquema com o GitBook para escrita do livro o que acabou sendo muito familiar pra mim que já havia escrito conteúdo com a ferramenta.

Somando a organização inicial e leitura das regras de escrita da editora, gastei 17 minutos para amolar o machado para começar os trabalhos.

A escrita do capítulo 1 demorou 15 horas e, assim que mandei para revisão, tive uma grande surpresa. Por eu escrever para a internet, neste blog ou em portais, eu achava que seria tudo muito rápido, sem erros.

A realidade foi bem contrária a isso.

Primeira revisão da Casa do Código, por Vivian Matsui

81 alterações, 42 itens removidos e ainda cometi vários erros no texto.

Como no comentário abaixo:

Evitar repetir tantas vezes “universo” aqui neste capítulo (com um rápido ctrl F encontram-se 26 ocorrências. Tente distanciar e evitar repetições no mesmo parágrafo sempre que possível)

Comentário sobre as 26 ocorrências da palavra universo no primeiro capítulo

Para corrigir os pontos que a Vivian comentou, gastei mais 6 horas.

Entre produção e revisões, gastei 103 horas e 20 minutos na escrita dos capítulos do livro. Fora as horas que eu esqueci de contabilizar.

Ao finalizar toda a escrita, enviei o livro para algumas pessoas de minha confiança que são um pouco críticas (gente chata) e que eu tinha certeza que me diriam pontos a melhorar. Vieram mais alguns pontos para trabalhar, executei isso rapidamente e mandei para a revisão final da editora.

Como a Vivian saiu de férias, o livro ficou parado por um tempo, o que aumentou a minha ansiedade!

Assim que ela voltou de férias, a revisão foi feita e começamos o processo de produção da capa.

Nós fizemos um pequeno brainstorm baseado no que eu falo no livro, coisas que eu gosto (e que fazem sentido no contexto do livro) e as pessoas de design da Casa do Código mandam brasa na produção.

Visto que o pessoal manda muito bem, eu aceitei logo a primeira opção de capa!

E assim ficou pronto o meu livro, com o título: O universo da programação, um guia de carreira em desenvolvimento de software.

Conhecimento pago é restrito: um conflito filosófico

Publicar o livro através de uma editora custa dinheiro.

Custa o trabalho das pessoas da editora, impressão, hospedagem e muito mais e por isso o livro precisa custar algo para trazer retorno para a empresa.

Cobrar por conhecimento é algo extremamente complicado pra mim. Eu prego a filosofia do conhecimento aberto, onde nós produzimos conteúdo e deixamos disponível para quem quiser consumir de maneira gratuita.

Quando cobramos por conhecimento, o conteúdo fica restrito a pessoas com condições financeiras, o que não é uma maioria no mundo.

Por mais que as pessoas trabalhem, tenham algum apoio de alguns governos, o dinheiro limita a nossa vida.

Mas, infelizmente, essa é a única maneira de a editora continuar existindo, ter algum crédito na minha produção e eu poder seguir aquele plano de levar esse conteúdo para as escolas públicas que comentei anteriormente.

Uma grande conquista pra mim

Em 2017 eu recebi muito reconhecimento pelo trabalho que eu tenho feito para as comunidades de programação (2017, o ano mais louco da minha vida), mas esse não é o meu foco. Eu quero levar conhecimento para as pessoas de baixa renda. Quero mudar a vida dessas pessoas através da programação, assim como a minha mudou.

Esse livro sendo publicado é uma grande conquista pra mim, uma pessoa que veio da periferia, cresceu no meio das drogas e da violência, que poderia ter o nome escrito na história como mais um jovem assassinado na madrugada da favela - hoje são 27 anos contrariando a estatística -, mas agora tem a oportunidade de mudar muitas vidas através da arma mais poderosa do mundo: a educação.

Como já disse Mandela:

A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo.

Frase do mandela em um banner maior

Se você quiser adquirir o livro, fica de olho no site da Casa do Código ou nas minhas redes sociais para saber quando for publicado. :grin:

Referências

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