William Oliveira

Carreira em programação, JavaScript, Nodejs, Performance Web, Git, GitHub, Linux, Open Source, mas também coisas realmente importantes como inclusão e diversidade - Vim da periferia pro mundo

A diferença entre ajudar comunidades, ganhar dinheiro com o mercado de educação e o marketing pessoal

Existe um abismo enorme entre ajudar as pessoas e ganhar dinheiro com o mercado de educação ou ganhar dinheiro com marketing pessoal e as comunidades de tecnologia se perderam em algum período da nossa história tendo hoje muita gente no palco fazendo marketing pessoal e pouca gente querendo de verdade.

Calma, mantenha a calma

Quando as pessoas me conhecem melhor logo percebem que eu sou um grande defensor do conhecimento compartilhado gratuitamente. Isso porque eu acredito que somente o conhecimento, a educação, é que pode mudar o mundo em que vivemos. Nada tem poder de transformação tão grande quanto a educação. E nem todo mundo tem dinheiro pra pagar por isso.

Sabemos que existem milhares de pessoas que não tem condições para comprar um curso, um livro, fazer um workshop, participar de eventos ou qualquer coisa do tipo afim de buscar conhecimento. Por isso, eu, pessoalmente, compartilho meu conhecimento de maneira gratuita e na internet… Para ajudar essas pessoas.

Porém existem diversas pessoas vendendo cursos e livros para receber um retorno financeiro pelo seu trabalho e não existe nada de errado nisso. Muito pelo contrário! Essas pessoas fazem um trabalho excelente e, para continuar fazendo algo tão profissional precisam dispor muito tempo de suas vidas. Elas deixam de fazer milhares de coisas pessoais, diversão e afins, para gerar um bom material.

Algumas pessoas não somente fazem ótimos conteúdos, como também vivem doando seus cursos para as comunidades de tecnologia, como o Fernando Daciuk, Fernanda Bernardo, Daniel Tapias Morales, Willian Justen de Vasconcellos e outros que fogem a memória nesse momento. Essa galera é simplesmente fera demais, como podemos ver no artigo sobre cursos gratuitos para aprender programação do zero.

Eu, pessoalmente, não gasto o meu tempo livre somente para compartilhar conhecimento… Eu realmente reservo um tempo fora do meu trabalho formal para contribuir (entre 2 e 3 horas por dia, para ser mais específico). É como um trabalho, porém compartilhar conhecimento não é minha fonte de renda. Algumas pessoas largam tudo para viver compartilhando conhecimento, ensinando algo que outras pessoas não ensinaram ou compilando conteúdos densos em conteúdo mais simples de se entender para assim ser mais acessível a todo mundo. Pessoas que fazem esse tipo de trabalho precisam, realmente, ganhar dinheiro para se manter. Isso é óbvio. Elas vivem disso.

Eu não vivo de conteúdo e por isso é muito mais fácil pra mim continuar dispondo o meu tempo livre em prol de ajudar as pessoas e não cobrar nada por isso.

Não acho legal criticarmos alguém só porque vende um curso ou livro de algo que nós fazemos de graça. Cada um possui um objetivo e ambos os objetivos podem ser completamente diferentes dependendo da filosofia, visão, missão e valores da pessoa (igual aqueles sites institucionais). Se a pessoa escolhe viver de conteúdo, ela precisa cobrar por isso.

O que eu não acho nada legal é ver pessoas falando que estão fazendo algo para ajudar a comunidade, mas é somente para aumentar sua base de clientes ou fazer marketing pessoal.

Elas usam a ingenuidade das pessoas para ganhar fama ou clientes por parecerem boazinhas, parecerem filantrópicas.

Não. Fazer conteúdo raso (artigos, cursos, livros, palestras) só para ter mais material para aumentar o volume de vendas, aumentar a quantidade de visualizações no site pessoal ou trocar de emprego pra ganhar mais não é ajudar as pessoas. É só uma tática para exploração do mercado (de educação ou não) que existe a anos e quem vai consumir um material caro são pessoas que já tem um poder aquisitivo maior ou mesmo pessoas que não sabem que o conteúdo é raso e ainda vão sair no prejuízo, pois deixaram de investir o pouco dinheiro ou tempo que possuem em algo que não vai agregar às suas vidas de verdade pelo preço que foi pago.

Este artigo é uma reflexão pessoal sobre essas pessoas: pessoas que dizem ajudar a comunidade, mas só estão afim de lucrar mais.

O tal do altruísmo

Eu não acredito em altruísmo.

Todos nós fazemos as coisas por uma recompensa. Não existe almoço grátis.

Eu ajudo as pessoas, procuro meios para capacitar as pessoas, simplesmente para que elas não sejam obrigadas a trabalhar em empregos ruins. A minha recompensa pelo meu trabalho gratuito nas comunidades é ver pessoas conquistando o emprego dos seus sonhos e não precisarem abaixar a cabeça para empresas ruins.

Quando eu ajudo uma pessoa de uma comunidade carente, por exemplo, a sair da favela para um “bairro melhor”, como eu fui ajudado, porque conseguiu um emprego em uma das áreas mais lucrativas de hoje em dia, que é desenvolvimento de software, esta é minha recompensa: ter feito o que o governo não fez pela nossa sociedade por nossos governantes estarem mais preocupados com a propina do final do mês ou sobre como superfaturar uma obra para pegar uma parcela do dinheiro.

Minha luta é diretamente contra essas empresas que fingem ser o que não são, que vendem uma imagem na internet e o dia-a-dia dos seus funcionários é terrível, que dizem ser legais, mas os funcionários estão em depressão por causa do ambiente de trabalho caótico em que estão inseridos por mais de a metade de sua vida. Então não… Eu não faço o que faço só porque sou bonzinho.

Existe uma luta por trás de tudo isso. Minha luta é contra as empresas ruins que fingem ser o que não são e contra um governo corrupto que não está nem aí para as pessoas que estão na parte de baixo da pirâmide financeira.

Tenho um artigo comentando sobre isso: É hora de sair dessa empresa aí.

Essa é uma luta estritamente pessoal. Ninguém precisa concordar comigo ou seguir a minha filosofia.

Pra mim o altruísmo é só uma forma de dizer que está ajudando alguém sem receber nada em troca, mas o simples fato de ter ajudado alguém para alimentar nosso ego é uma recompensa clara e contraditória ao significado da palavra altruísmo.

Altruísmo é um tipo de comportamento encontrado em seres humanos e outros seres vivos, em que as ações voluntárias de um indivíduo beneficiam outros. É sinônimo de filantropia. No sentido comum do termo, é, muitas vezes, percebida como sinônimo de solidariedade. (Wikipédia)

Eu recebo uma recompensa pelo meu trabalho que massageia o meu ego, que é quando eu recebo uma mensagem de alguém dizendo que conseguiu arrumar um emprego nossa área. Aquela sensação de dever cumprido nada mais é do que uma clara recompensa pelo que eu venho fazendo contra o governo e empregos ruins. E quanto mais gente agradece, mais eu sinto vontade de contribuir e assim vai. Eu não acredito que isso seja altruísta.

Se você discorda de mim sobre isso, comente por favor, pois eu posso estar enganado em relação ao significado de altruísmo.

A estratégia de usar comunidades como marketing de conteúdo

Agora chega ao ponto em que eu fico com a pulga atrás da orelha: vejo pessoas distribuindo pela internet conteúdo raso, dizendo que é para ajudar a comunidade, mas o seu curso completo ou o seu livro que realmente ensina algo útil para as pessoas tem um valor e nós temos que pagar por eles.

Isso não é ajudar. Isso é aumentar a visibilidade da própria marca a fim de gerar leads.

Lead, em Marketing Digital, é um potencial consumidor de uma marca que demonstrou interesse em consumir o seu produto ou serviço. (marketingdeconteudo)

Não teria problema algum fazer isso, se não fosse pela mentira de dizer que está ali para ajudar alguém, pois isso é puro marketing. Isso é estratégia de conteúdo. Isso é para gerar lead!

Algumas pessoas famosas, com um bom tempo de carreira, fazem palestras de get started/hello world que encontramos nas documentações das ferramentas que utilizamos ou mesmo em artigos espalhados pela internet somente para aparecer em mais algum evento e consolidar sua marca pessoal. É somente para se vender. Não é para ajudar ninguém. Não é para ajudar o evento. Não é para ajudar pessoas. É só para aumentar sua base de clientes ou fazer o seu marketing pessoal.

Eles não estão interessados no crescimento profissional das outras pessoas, só de aparecer em mais um evento.

Não teria problema algum fazer uma palestra dessas se as pessoas que estão na platéia não tivessem pago um alto valor para estar ali ou se fossem somente iniciantes precisando de direcionamento. Nós vamos aos eventos para ver algo que vá mudar a nossa visão, que vá agregar a nossa profissão, mas ao contrário, estamos vendo figurinhas repetidas fazendo marketing pessoal e saímos de lá quase sem nada agregado.

Marketing Pessoal é o conjunto de estratégias, aplicadas de maneira coerente e planejada, que irão fazer com que você atribua um maior valor a sua imagem pessoal. (marketingdeconteudo)

O marketing pessoal ajuda a conseguir bons empregos, aumentar o salário, assim como ajuda pessoas que vivem de vender seu conteúdo a vender mais e mais. Então, no final das contas, não é para ajudar ninguém, é somente por sí mesmo(a).

Sejamos francos, isso acontece a anos e hoje as pessoas utilizam as comunidades de tecnologia para tal.

Não vamos defender nomes famosos só pela quantidade de seguidores que tem, pelo número de artigos rasos que escreveram, pela quantidade de palestras rasas que já ministraram ou coisa do tipo, devemos ser honestos consigo mesmos e mais críticos quanto aos nossos ídolos para reparar quando eles estão fazendo algo útil ou não por nossas vidas.

Este sentimento de que as comunidades estão se perdendo para o marketing pessoal é algo compartilhado por outras pessoas que vivem discutindo sobre isso em canais como o Telegram ou Slack. Não sou a única pessoa que já percebeu isso. Antes de me envolver profundamente com comunidades eu já era alertado a respeito desse comportamento.

Leia o texto de 2014 abaixo, do Daniel Filho, antes de se revoltar com minhas palavras achando que eu estou dando alguma indireta para alguém. Não… Não é indireta, é uma reflexão pessoal sobre o que se tornaram as comunidades de tecnologia.

Óbvio que existem profissionais de expressão, mas isso aqui é um mercado de desenvolvedores, não de rockstar-jedi-samurai-ninja. PAREM COM ISSO. Queime seus ídolos

Eu já queimei meus ídolos a algum tempo e recomendo que você também faça isso.

Sejamos mais críticos(as) referente as pessoas que nós seguimos, apoiamos e até compartilhamos por aí para não cair no erro de compartilhar alguém que só está ali por egocentrismo, não está para ajudar ninguém de fato.

Espalhe a palavra!

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